Monday, September 29, 2008

1988



texto que integra o catalogo da expo transfer

1988
por Alexandre Cruz “Sesper”

O paulista Billy Argel teve o primeiro contato com o skate aos 15 anos, fazendo seu próprio skate: um patins cerrado ao meio, pregado num pedaço de madeira. Na busca por achar lugares ideais para andar, conheceu a galera do skate que estava se juntando no parque Ibirapuera. Iniciou assim a troca de informações, tão preciosa naquela época. Mas foi na extinta pista de skate Wave Park que realmente se destacou como skatista e juntou-se ao grupo conhecido como “Waveboys”. Cada vez que aparecia por lá, desenhava seus amigos na parede da pista. Todo mundo curtia e assim a sua arte começou a ser divulgada. Nesta mesma época começou a tocar e se envolver com a música e, em 1984, formou uma das bandas de punk nacional de maior influência da cena, a Lobotomia.

Em 1985 Billy deu início as atividades da que seria a maior agência de skate que existiu no país, a Highgraph. Foi pioneiro no Brasil em ilustrações relacionadas a caveiras, terrorismo, armas e slogans voltados para a cultura Punk. Revolucionou o mercado nacional com o trabalho de pranchas de skate bem desenhadas e ilustradas com mensagens fortes. Na Highgraph, além de atender marcas de skate, fazia embalagens para vídeo game, perfumes, ilustração, aerografia, capa de discos, capa de cadernos e logotipos. No período de 1985 a 1990 nada menos do que 42 marcas passaram pelo seu estúdio, grande parte delas do segmento de skate. Vários anúncios de skate que são lembrados até hoje, assim como a estética de produtos e estampas, saíram de lá. Dito isso, vamos ao meu aniversário de 15 anos.

Acredito que um incidente peculiar, notoriamente lembrado por meus parentes em quase toda reunião familiar, pode ilustrar bem o período de 1988. Eu fazia 15 anos naquele inverno. Como todo ano, não pedi presentes e sim dinheiro dos meus pais e tios, assim poderia juntar e comprar exatamente o material de skate que estava sonhando. Afinal, quando comecei a andar de skate em 86 um skate H.Prol1 resolvia, mas, no final de 87, quando eu já tinha meu primeiro Street Terrorist2, da Urgh!, as coisas mudaram.

Bom, voltando ao saudoso aniversário. Eu morava em Santos, onde tinha uma loja em que o dono era um cara que chamávamos de “Barbee” ou coisa parecida. Ele recebia novos decks3 da Lifestyle e Urgh! antes das demais lojas da região e, apesar do preço ser salgado para um pré-adolescente que não trabalhava, era o meu sonho de consumo. Acredito que meu e de milhares de garotos que viveram esse período.

Minha mãe fez uma linda festa, cozinharam dois dias: doces, bolo, salgados, etc. Mas para um moleque que escutava hardcore e thrash metal, ficava direto trancado lendo revistas ou então sumia de skate por mais de 12 horas, isso era totalmente... Secundário! Eu vivia, de certa forma, “alienado” com esse universo e ainda vivo. Mas vivia cada dia da adolescência como se fosse o último, sonhando com os models e gráficos, trucks (eixos) e rodas.

Churrasco vai churrasco vem no meu aniversário de 15 anos e eu já tinha a verba suficiente para comprar um deck e, quem sabe, um jogo de rodas (que acabou sendo meu primeiro set de team riders4). Totalmente influenciado pelo gráfico finíssimo e modelo bizarro, escolhi um Fernandinho estágio 25. Bom, como os trucks já estavam na mochila, foi só montar o skate ali na loja, com lixas de morcego (lógico) e escutar o Masters of Puppets6 por horas seguidas pensando “Pra que Zorlac e shapes do Metallica7? Isso aqui é muito melhor!”.

Voltando ao aniversário... Eu não voltei para apagar as velinhas ou agradecer pelos presentes. Foi uma grande tristeza para eles, por outro lado um dia feliz e importante na minha vida. Na segunda-feira, com o troco, fui numa livraria Siciliano e comprei minha primeira revista Thrasher8, aquela que tem três caras descendo a ladeira escrito “legalize it” na capa, edição de julho de 88. Ali foi uma mudança na minha vida, primeiro porque vi que aquele deck que comprei, apesar de todo o conceito, não foi o melhor para a minha evolução. Eu era magrelo e aquele shape era gigante. Começava ali uma busca por informação do exterior, mas leve em consideração que eu comprava qualquer publicação brasileira possível que tivesse algo relacionado a skate, além das clássicas revistas brasileiras Overall, Yeah! e Skatin’.

No natal de 1988 a historia se repetiu. Utilizei minhas artimanhas de criança mala e consegui verba extra para um deck. Na tarde do dia 24, por volta das 17h30, já tinha desmontado os mesmos trucks das peças de team riders do aniversário, fui na mesma loja com um amigo e lá estava ele. Um deck do skatista profissional Thronn, high nose, vários concaves9, corte menor e gráfico que era um soco na cara. Tudo que poderíamos querer de elementos e conceito. Foi o tempo de secar uma lixa inteira em cima do shape, tacar os trucks e rodas e tentar por horas e horas subir qualquer coisa possível de ollie10. O Metallica eu já não pirava tanto, se marcar o baixista Cliff Burton já tinha ido. Já escutava o disco The Crew da banda 7 Seconds como uma bíblia. Puts, mais uma vez esqueci dos meus parentes. Aquela noite não apareci para a ceia e fiquei andando de skate até umas 3 ou 4h da manhã. Meu pai tentou me castigar e esconder o skate, mas eu consegui encher tanto, mas tanto, o saco dele que o castigo não durou.

Talvez a partir desse momento eu tenha começado a prestar mais atenção nos gráficos do que nas manobras. Assim começava meu sonho: desenhar e diagramar revistas, anúncios e decks. Imagina só ter uma arte impressa num deck... Foi nesse período que realmente formei meu estilo de vida. Com som que não era fácil como agora na era da internet, produtos que eram feitos com mais carinho e dedicação, fanzines e publicações que eram “true till death” via correio, roupas de marcas que apoiavam o esporte ou conceitos relacionados ao mercado nacional, muito mais do que grandes empresas do exterior... Alias, eu tinha muita vergonha do que era pirateado no Brasil. Beirava o ridículo.

Levando tudo isso em consideração, acredito que o trabalho de Billy Argel, que aparecia assinado como Highgraph ou Adherbal, influenciou e muito uma geração de skatistas, artistas, músicos, enfim, seres humanos do nosso país. Isso é muito mais real do que se pode imaginar ou compreender. Essa influência está incrustada nas nossas almas como um testamento. Foi um período que com certeza nunca esqueceremos e mostraremos para as futuras gerações com orgulho.


1 A H.Prol foi uma das marcas brasileiras responsáveis pela popularização do skate nos anos 1980.

2 Street Terrorist foi um modelo popular de prancha de skate no Brasil dos anos 1980. Lançado pela marca nacional Urgh!, o produto vinha serigrafado com ilustração de Billy Argel.

3 Deck: prancha de skate. No Brasil, também chamada de “shape”.

4 Set de team riders: conjunto de peças de skate assinadas por skatistas profissionais, integrantes de equipes de marcas de skate.

5 Fernandinho - Estágio 2: Modelo de prancha de skate assinada pelo skatista profissional Fernandinho “Batman”. Ilustrado por Billy Argel, o produto foi lançado pela marca brasileira Lifestyle no final dos anos 1980.

6 Master of Puppets é o terceiro disco da banda de trash metal norte americana Metallica.

7 Nos anos 80 a marca norte americana Zorlac lançou pranchas de skate em parceria com o Metallica. A arte é de Pushead, ilustrador tanto de produtos da marca quanto de capas de disco da banda.

8 A Thrasher Magazine é conhecida como a “bíblia do skate”. Editada em San Francisco – Califórnia, a revista que começou como fanzine se orgulha de fazer jornalismo “de skatista para skatista”.

9 Nose, tail e concave são elevações da prancha de skate que facilitam manobras e dão estabilidade ao skatista.

10 Ollie é a manobra fundamental do skate de rua. Nela, sem usar as mãos, o skatista pula fazendo o skate quicar no chão e subir “colado” aos pés, vencendo assim os mais variados obstáculos ou servindo de ponto de partida para tantas outras manobras.

1 comment:

  1. Da um bom filme essa história hein...

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